Por que algumas mulheres continuam sentindo dores mesmo após a cirurgia para endometriose?

Muitas mulheres com endometriose sofrem, por muitos anos, com dores intensas e acreditam que a cirurgia vai trazer o tão sonhado alívio e a cura da doença, mas, não é bem por ai!

De uma maneira bem objetiva, você precisa saber de três coisas:

A endometriose não tem cura, até o momento;

Nem todo caso tem indicação cirúrgica e quem vai avaliar isso é a equipe médica que te acompanha;

A cirurgia não é a solução para todas as dores, pois, nem todo desconforto tem relação direta com os focos.


A cirurgia cuida dos focos, não de todas as dores

O que muita gente não sabe é que, na endometriose, a mulher pode sofrer com dores de diversos tipos: neuropática, nociplástica, nociceptiva. E a associação desses três tipos é muito comum.

Claro que você não precisa saber disso com detalhes, mas, é importante que você entenda que as dores na endometriose não têm relação única com os focos. Quando você entende isso, fica mais fácil de aceitar porque a dor pode continuar, mesmo após a retirada das lesões.

Inclusive, quando a cirurgia é muito extensa ou quando a mulher passa por cirurgias recorrentes, a dor pode aumentar.

Manipulações muito próximas aos nervos aumentam as chances de dores neuropáticas no pós- operatório e a mulher pode sentir formigamentos ou dores em choque, por exemplo, e isso precisa ser tratado.

Importante pontuar que isso não significa erro no procedimento, mas consequência da manipulação de estruturas muito sensíveis. Nas lesões profundas, fica tudo muito próximo e, nem sempre, é possível evitar esse tipo de acometimento.


É normal sentir dor mesmo após a cirurgia de endometriose?

Sentir dor constante nunca é normal. E você deve gravar isso!

Dado esse primeiro passo, é preciso que você entenda que a cirurgia NÃO é garantia do alívio das dores da endometriose.

Eu sei que isso pode ser frustrante, mas precisamos alinhar as expectativas.

Como falei anteriormente, as dores da mulher com endometriose têm origens variadas e a cirurgia não consegue atuar em todas elas.

O quadro inflamatório decorrente da doença gera alterações teciduais que causam dores e disfunções – como dor na relação sexual e desconforto evacuatório. E é preciso trabalhar esse tecido para que o alívio seja alcançado e as funções restauradas.

Esse tipo de abordagem faz parte da atuação da fisioterapia, que é especialidade que trabalha diretamente na recuperação dessas funções.

O uso de medicação, vai atuar no sintoma, não na causa, ou seja, você vai viver dependente do remédio e sofrer com os efeitos colaterais.

Se fizer novas cirurgias para tentar resolver esse tipo de dor, vai piorar o quadro, pois o aumento do trauma tecidual no procedimento, alimenta os fatores perpetuadores da dor.

Ou seja, a cirurgia não vai resolver todos os problemas. Não é certo depositar no procedimento cirúrgico, uma expectativa que não condiz com a realidade.

Todo recurso terapêutico tem a sua indicação e os seus limites. E isso precisa ser normalizado.

Sentir dor constante após a cirurgia, não significa que o seu caso não tem solução. Agora você já consegue entender que isso pode acontecer e que é possível minimizar esse desconforto. Com intervenção correta e específica da fisioterapia.

A fisioterapia e a medicina, assim como outras especialidades, caminham juntas no controle das dores da endometriose. E essa “parceria” não pode ser ignorada. São abordagens complementares e que potencializam os resultados.

Endometriose não é sinônimo de dor. Nem antes, nem depois da cirurgia.


A importância da fisioterapia no controle das dores da endometriose

A endometriose é uma doença inflamatória crônica que pode alterar a tensão dos tecidos, não apenas ao redor das lesões, mas também em regiões mais distantes da pelve. Essas alterações podem interferir no funcionamento de estruturas importantes do corpo, comprometendo funções como a micção, o funcionamento intestinal e, consequentemente, a qualidade de vida.

Esse processo inflamatório persistente leva à liberação de diversas substâncias no organismo, capazes de sensibilizar terminações nervosas e contribuir para a manutenção da dor ao longo do tempo. E esse é um dos fatores que têm relação com a continuidade da dor no pós-operatório.

Após anos convivendo com dor, o cérebro aprende a funcionar de uma maneira diferente e isso dificulta a percepção do alívio. É preciso implementar estratégias específicas para “destreinar” o cérebro nesse sentido. É comum que estímulos que antes não causavam desconforto, passem a incomodar e que a sensibilidade dolorosa fique aumentada, ou seja, estímulos menos intensos provocam grandes desconfortos.

Além disso, os músculos, principalmente em abdome e pelve, respondem a esses estímulos entrando em tensão constante, exagerada e disfuncional. E relaxante muscular, sozinho, não dá conta do recado.

Outro ponto: a fibrose – comum do quadro inflamatório – pode aparecer de forma exagerada e reduzir a mobilidade dos órgãos, como o intestino. Isso favorece a retenção de gases, distensão abdominal e mais desconforto. E, quanto mais cirurgias abdominais forem feitas, maiores as chances disso acontecer – se você não fizer fisioterapia pré e pós-operatória para ajudar nesses casos.  

Diante de tantas alterações, esperar que as dores melhorem sozinhas ou com o uso de medicações constantes, pode ser algo frustrante e desanimador. O mais indicado é que haja uma abordagem efetiva, que atue no controle dessas alterações e contribua com o alívio desejado.

É nesse ponto que a fisioterapia aparece com um papel importante no controle das dores relacionadas à endometriose.


Como a fisioterapia atua no controle das dores da endometriose?

Por meio de técnicas específicas, a fisioterapia atua na redução das tensões musculares, na melhora da mobilidade dos tecidos, na liberação de restrições teciduais e na reorganização de funções e do sistema de dor, alterados pela doença.

A terapia manual pode ajudar a melhorar o deslizamento entre estruturas que perderam mobilidade, favorecendo o funcionamento adequado de órgãos como o intestino e reduzindo desconfortos como distensão abdominal. Além disso, é um dos recursos mais indicados no tratamento das dores nas relações sexuais, com resultados excelentes!

Trabalhar a respiração é outro ponto que muda todo o processo de reabilitação. Quem tem dor crônica não sabe respirar. E uma boa ventilação é essencial para o funcionamento adequado do organismo.

O direcionamento dos exercícios também é uma abordagem da fisioterapia. O exercício físico é ótimo no controle das dores, com outros inúmeros benefícios, mas, quando feito de maneira equivocada, pode trazer resultados desastrosos.

Além disso, a fisioterapia trabalha educação em dor, que é uma das formas de “desarmar” as respostas excessivas do cérebro, muito estimulado com todas as alterações de anos de dor. Mass, isso exige conhecimento específico. Dicas soltas de internet não vão adiantar.

Todas essas diversas abordagens da fisioterapia buscam não só o controle dos sintomas, mas a construção de resultados reais e duradouros. É importante ajudar o organismo a sair de um estado constante de proteção e sensibilidade aumentada e permitir que o corpo volte a funcionar com mais equilíbrio.

Quando o tratamento considera não apenas a doença, mas as adaptações que o corpo desenvolveu ao longo do tempo convivendo com a dor, novos caminhos de recuperação se tornam possíveis. E fazem toda a diferença nos resultados.

A fisioterapia tem um papel importante nesse processo, ajudando a reorganizar funções, reduzir desconfortos e devolver ao corpo condições mais saudáveis de movimento, funcionamento e qualidade de vida.

Conviver com a endometriose pode fazer parte da vida de muitas mulheres.

Conviver com dores constante não precisa fazer!

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Michelle Nery

Olá! Eu sou Michelle Nery, fisioterapeuta especializada em Dor pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Estudo e Pesquisa, palestrante e mentora de negócios. Me formei em 2004, tenho formação no método Pilates e uma trajetória de duas décadas dedicadas ao tratamento da dor crônica.

Minhas especialidades em Fisioterapia
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Michelle Nery

Olá! Eu sou Michelle Nery, fisioterapeuta especializada em Dor pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Estudo e Pesquisa, palestrante e mentora de negócios. Me formei em 2004, tenho formação no método Pilates e uma trajetória de duas décadas dedicadas ao tratamento da dor crônica.

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